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O Cruzeiro Costa Leste – CCL – nasceu no ICRJ na década de 80, quando sócios liderados por Newson Campos, Jair Nunes Pereira e Paulo Lima organizaram e realizaram a primeira edição do cruzeiro em 1987 com 29 veleiros participando, com 06 barcos de sócios do ICRJ. O objetivo era velejar do Rio de Janeiro a Recife, para participar da segunda edição da Regata Recife-Fernando de Noronha - REFENO.
Depois de muitos anos, em 2002/2003 outro sócio do ICRJ, François Moreau, contando com incentivo e apoio do Newson e do Paulão, trabalhou para reativar este cruzeiro, realizando as edições de 2004 (32 barcos, incluindo 6 barcos de sócios do ICRJ, 3 argentinos, 1 australiano e 1 francês ) e 2006 com 42 barcos (3 barcos de sócios do ICRJ, 9 argentinos entre 12 barcos que chegaram ao ICRJ no Crucero de La Amistad). Nestas edições já participaram muitos veleiros de outros estados, além de barcos da Argentina, que começaram a organizar o Crucero de La Amistad (Buenos Aires-Rio) a partir de 2006. O François atuou como Comodoro do Cruzeiro Costa Leste nestas edições. O CCL largou do ICRJ com destino a Salvador, incluindo paradas em Armação dos Búzios (ICAB), Vitoria (ICES), Abrolhos (Marinha e IBAMA), Ilhéus (Ilhéus Iate Clube), Camamu e Salvador (CENAB - Centro Náutico da Bahia). A partir de 2006 foi incluída mais uma parada, em Santo André, logo ao norte de Cabralia. A partir de Salvador os veleiros se juntavam ao Rali Náutico Salvador-Recife, organizado pela Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia - SUDESB e em Recife, participaram da REFENO.
Em 2007 houve uma negociação entre o ICRJ e a Associação Brasileira de Velejadores de Cruzeiro - ABVC, que passou a organizar o Cruzeiro Internacional Costa Leste - CICL, com apoio do ICRJ. Na edição de 2008 o Comodoro foi o João Calmon (Janjão) e o Ricardo Montenegro foi o vice-comodoro com participação de 53 barcos (apenas 2 barcos de sócios do ICRJ, mas com 11 barcos argentinos entre 14 que chegaram ao ICRJ no Crucero de La Amistad), mantendo as mesmas paradas e a mesma seqüência com participação no Rali Náutico Salvador - Recife e na REFENO.
Porém começaram a surgir alguns problemas, principalmente em decorrência do número crescente de embarcações participantes, ao mesmo tempo em que diminuía fortemente o número de barcos associados do ICRJ.
Em agosto de 2009, o François e o Janjão me surpreenderam com uma convocação para que eu assumisse a Comodoria do CICL para a edição de 2010, relatando claramente que o primeiro problema a ser resolvido consistia num acordo entre o ICRJ e a ABVC para aparar arestas surgidas em 2008. Além disso, já eram previstas algumas modificações importantes:
- o número de embarcações seria maior, limitado a 60 barcos;
- o CICL 2010 teria que começar no ICRJ e terminar em Recife, no Cabanga Iate Clube, onde a flotilha participaria da REFENO;
- a parada em Salvador teria que ser longa, no mínimo 20 dias, e o TENAB (Terminal Náutico da Bahia, órgão que sucedeu o CENAB – Centro Náutico da Bahia) previa dificuldades para receber todas as embarcações, uma vez que estaria com muitas vagas ocupadas por embarcações participantes do Circuit De Soleil;
- um número significativo de barcos (35 no total), provenientes do Crucero de La Amistad, chegaria ao ICRJ dias antes da largada do CICL 2010 (Cruzeiro Internacional Costa Leste – 2010) e vários (9 barcos) iriam prosseguir como participantes do CICL 2010.
Tanto na ABVC quanto no ICRJ tive muito apoio, o que tornou possível estabelecer um acordo básico entre o ICRJ e a ABVC para realização do CICL 2010, devidamente assinado em dezembro/2009. Uma das maiores dificuldades consistia no enfoque a ser dado a eventuais patrocinadores, para evitar qualquer conflito ou desgaste para o ICRJ.
Tudo preparado, inclusive os contatos preliminares com os clubes que dariam apoio ao longo da velejada, as inscrições foram abertas em dezembro/2009 e para minha surpresa em janeiro/2010 já tínhamos 60 barcos inscritos e mais alguns barcos numa "fila de espera".
Tal como nas edições anteriores, mantivemos a realização de palestras de interesse dos participantes no CICL 2010, sempre na última quarta-feira de cada mês (janeiro a junho), com boa participação de velejadores. Pedi ajuda do François e ele assumiu inteiramente a tarefa de organizar estas palestras no ICRJ, que sem dúvida constituíram um ponto forte do CICL 2010.
O tempo passava rapidamente e em abril tomou posse a nova Comodoria do ICRJ, a qual manteve grande apoio para a realização do CICL 2010. Mas, em abril começamos a ter más notícias, relacionadas à meteorologia. Uma ressaca destruiu os pieres do ICRJ, o que aumentaria muito as dificuldades para a recepção das embarcações participantes do CICL 2010, e dias depois outra ressaca destruiu um dos pieres do TENAB em Salvador, limitando mais ainda o número de barcos que lá poderiam permanecer. A direção do ICRJ logo encontrou alternativas para resolver o problema aqui no Rio e a Comodoria do Aratu Iate Clube imediatamente ofereceu ajuda, para resolver o problema em Salvador. Como se não bastasse, em maio, parte de um dos pieres do Aratu Iate Clube afundou.
No início de maio o Crucero de La Amistad largou de Buenos Aires com 26 barcos, com paradas em Punta Del Este, Rio Grande, Pelotas, Florianópolis, Ilha Bela, Bracui e com chegada no ICRJ em 14/julho, dias antes da largada do CICL 2010 marcada para 17/julho. No Rio Grande do Sul 9 barcos se juntaram ao Crucero de La Amistad e como já comentado, 35 barcos chegaram ao ICRJ, dos quais 9 se juntaram ao CICL 2010.
Finalmente, julho chegou e o trabalho para receber as embarcações participantes aumentou muito. A recepção das embarcações e suas tripulações foi realizada de maneira primorosa pela direção e empregados do ICRJ, destacando a acomodação de quase todas as embarcações em poitas, a permanência de quase 200 tripulantes circulando pelo ICRJ e o jantar comemorando a largada realizado no ICRJ, graças ao apoio decisivo do Comodoro Luiz Carlos Barroso Simão.
Mas, definitivamente a meteorologia não colaborou e no dia da largada, 17/julho, as condições de vento e mar eram totalmente adversas. Pela manhã tivemos uma reunião e decidimos adiar a largada. No início da tarde recebi uma chamada telefônica da Capitania dos Portos, quando um oficial da Marinha me comunicou que as operações das lanchas de praticagem fora da Baía da Guanabara haviam sido suspensas. Agradeci a informação, mas o oficial nitidamente desconfortável não terminava a conversa, até que meio sem jeito ele me disse "mas, e os veleiros como vão largar, sabendo que nem as lanchas de praticagem poderão sair da Baía, devido à altura e freqüência das ondas?" Caiu a ficha e informei que já havíamos decidido adiar a largada, exatamente devido aos ventos fortes e más condições do mar. Foi um grande alívio e o oficial ainda quis se certificar que nenhum veleiro iria largar, antes de agradecer e desligar.
Definitivamente a meteorologia não colaborou em 2010. Além do atraso na largada, tivemos atrasos em Búzios e Ilhéus, aguardando melhoria das condições de vento e mar. Pior ainda, em Camamu tivemos que adiar a saída para Salvador e dividir a flotilha em dois grupos. O grupo de embarcações maiores e cujos comandantes se julgavam mais preparados, largou para Morro de São Paulo, com ventos de alheta/popa entre 25 e 30 nós, chegando a 40 nós nas rajadas, e com ondas de 3 a 3,5 m com freqüência ao redor de 8 segundos. Mesmo na perna Morro de São Paulo-Salvador, velejamos com ventos acima de 20 nos e ondas de 2,5 a 3,0 m.
Na data marcada para a saída de Salvador, novamente problemas com a meteorologia. Previsão de ventos de 15 nós e ondas de 2,0 m. Largamos de Salvador e a partir do Farol da Barra, os ventos (Orsa folgada) intensificaram, passando de 30 nós e as ondas subiram, passando de 3,0 m. Tentamos prosseguir durante mais de 1 hora, mas as condições não melhoravam e quando estávamos no traves de Itapuã, informações obtidas via rádio, de embarcações que estavam horas a nossa frente, confirmavam ventos e ondas muito piores do que a previsão meteorológica. Não restou outra alternativa; abortamos a saída e retornamos a Salvador (TENAB), depois de quase 3 horas de luta.
Mesmo na largada da REFENO a meteorologia dificultou a velejada. Não tanto pelos ventos, mas pelas ondas entre 2,5 e 3,0 m e desencontradas. Largaram 104 embarcações (incluindo 42 barcos que haviam participado do CICL 2010), sendo que vários barcos inscritos, na última hora decidiram não largar para não enfrentar as condições de ondas adversas. Seis barcos tiveram problemas sérios no leme e foram forçados a abandonar a REFENO.
O CICL 2010 teve algumas características bem marcantes, por exemplo, a participação de várias embarcações com famílias a bordo; pai, mãe e filhos/filhas. Em alguns casos crianças mesmo, sendo que o participante caçula do CICL 2010 tinha 5 meses na largada do ICRJ. Outra embarcação tinha como tripulação pai, mãe, filha de 6 anos, filha de 4 anos e filho de 1 ano, que ainda não andava, além de um cachorro. Aliás, tivemos 3 cachorros velejando do Rio de Janeiro a Salvador.
Outra marca fundamental do CICL 2010 foi a cooperação entre os participantes. Em várias paradas tivemos problemas com ancoragem e com barcos garrando. Em Santo André a variação da maré resultava em forte correnteza, aliás fato comum neste local. Mesmo com toda preparação e cuidados tomados na ancoragem, muitos barcos garraram, inclusive durante a madrugada, e prevaleceu o espírito de equipe e solidariedade para evitar qualquer acidente de maior gravidade. Em Camamu, a mesma situação se repetiu e mais uma vez acidentes sérios só não aconteceram devido à solidariedade entre os participantes.
Esta mesma solidariedade e espírito de equipe foram essenciais para evitar acidentes durante as várias velejadas, principalmente quando algum barco apresentava problemas. Na saída de Santo André, a 12 milhas da costa, um barco começou a fazer água pelo eixo da hélice. Pedido o socorro, dois outros barcos se aproximaram, um por cada bordo, e jogaram cabos amarrando o barco com problemas por boreste e por bombordo. Tripulantes destas duas embarcações mergulharam e conseguiram recolocar o eixo em sua posição correta após duas horas de trabalho, permitindo que a embarcação com problema prosseguisse na velejada ate Ilhéus. Na perna Salvador-Recife, outra embarcação teve problemas com a partida do motor. Pedida ajuda pelo rádio, outro barco se aproximou, um tripulante nadou até o barco com problemas e depois de 3 horas o problema foi resolvido e o motor voltou a funcionar. Entre Santo André e Ilhéus um barco perdeu a hélice e foi rebocado por mais de 50 milhas até o Ilhéus Iate Clube.
A união e amizade desenvolvidas entre os tripulantes ficavam muito claras nas paradas, quando sempre acontecia pelo menos um churrasco. Com vários barcos vindos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina quase havia briga para decidir quem faria o churrasco, alguns deles realmente inesquecíveis.
Importante mencionar outros clubes que deram total suporte ao CICL 2010, viabilizando sua realização, além do ICRJ e da ABVC sem os quais obviamente não haveria o CICL 2010; IC Armação de Búzios, IC Espírito Santo, Ilhéus IC, Aratu IC, TENAB e Cabanga IC. Menciono também o IC do Natal, que recebeu muitos dos participantes no CICL 2010 na volta de Fernando de Noronha.
Um dos momentos que mais me emocionou durante o CICL 2010 foi durante a entrega do Troféu Newson Campos, criado em 2008 pela ABVC e entregue ao barco participante do Cruzeiro Internacional Costa Leste que obtenha a maior pontuação na REFENO. Ainda mais que dois barcos empataram com a mesma pontuação. O regulamento criado pela ABVC prevê que neste caso, o Comodoro do CICL, baseado no critério de maior solidariedade demonstrado durante o CICL, decida qual barco será o ganhador do Troféu Newson Campos. Analisei a atuação dos dois barcos que haviam empatado e conclui que ambos haviam demonstrado grande solidariedade em diferentes momentos do CICL 2010. Decidi que os dois barcos seriam premiados conjuntamente e, apesar de algumas discordâncias de participantes, os dois comandantes aplaudiram esta decisão.
Encerrada a edição 2010 do CICL, temos que usar o aprendizado vivido nesta edição, para discutir com a ABVC e o ICRJ o futuro do Cruzeiro Internacional Costa Leste. Por exemplo, a realização em anos pares e nos meses de julho/agosto/setembro pode ser inviável nos anos de 2014 e 2016, quando outros eventos esportivos – Copa do Mundo, em 2014 e Jogos Olímpicos, em 2016 – estarão ocupando toda a atenção da mídia, patrocinadores, etc.
Outro ponto fundamental refere-se ao número de embarcações. Pessoalmente posso afirmar que tive apoio de todos os clubes e comandantes durante todo o CICL 2010. Mas, mesmo com todo apoio, é muito difícil comandar um grupo de 60 barcos. Claro que alguns barcos ou são muito mais rápidos ou o comandante quer apressar a largada de uma determinada parada, enquanto outros barcos ou são mais lentos ou simplesmente o comandante quer curtir uma determinada parada. E se não houver limitação imposta pela ABVC, tenho certeza de que o número de barcos na próxima edição do Cruzeiro Internacional Costa Leste vai ser maior ainda, provavelmente entre 70 e 80 barcos.
Finalmente, um ponto a ser pensado entre nós, sócios do ICRJ – porque tão poucos sócios do ICRJ participaram do Cruzeiro Internacional Costa Leste? O que temos que fazer para que mais sócios venham a participar?
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