mundos opostos webMUNDOS OPOSTOS
ELENCO: J.K. Simmons, Minas Hatzisavvas, Niki Vakali, 2016 (Grécia), 105 min, Drama (14anos).

Numa Grécia assolada pela terrível crise socioeconômica, mas ainda conectada aos seus deuses, em especial Eros, a universitária Daphne (Niki Vakali) é salva de um estupro pelo imigrante ilegal sírio Farris (Tawfeek Barhom). Já o executivo Giorgios (Christopher Papakaliatis) encara a dissolução da empresa em que trabalha ao mesmo tempo em que se envolve mais do que o esperado com uma consultora estrangeira (Andrea Osvárt). Enquanto isso, o historiador Sebastian (J.K. Simmons) tenta se comunicar com uma senhora (Maria Kavoyianni) no mercado.

Crítica por - Andrés von Dessauer

O torvelinho resultante do enorme fluxo de refugiados do Oriente Médio à Grécia, país considerado porta de entrada dessa massa para a UE, combinado com a grave crise econômica dessa Nação que, tal qual o Brasil, gastou acima que devia, motivou o cineasta grego, Christopher Papakaliatis, a produzir MUNDOS OPOSTOS (Enas Allos Kosmos / Worlds Apart, 2015) uma das obras cinematográficas mais expressivas dos últimos meses.

O respaldo da mitologia grega garante a profundidade e a diversidade do argumento central, e, assim, por meio de três episódios tangenciáveis, Eros, deus do amor, pratica suas assanhas, como de costume, sem se importar com raça, com idade ou com credo dos elegidos como alvo.  Considerando que a Grécia é extremamente religiosa, a cisão entre as estórias é pontuada por uma procissão. Vale notar que a condição de fecho desse cortejo disposto ao final de cada capítulo deixa clara a predominância do mito nesse trabalho, contudo, como a essência de qualquer romaria é instigar a reflexão, pode-se dizer que a possibilidade de praticá-la é generosa.

Note-se que, a acepção ‘mundos opostos’ não recai, exclusivamente, sobre as etnias, mas também se refere às três formas de materialização do amor. Assim, o despertar de um amor juvenil (primeiro episódio, ‘Bumerangue’) é substituído por um sentimento baseado essencialmente na atração de duas pessoas que vivem a dura reprodução do capital (segundo episódio, ‘Loseft 50mg’) e, aparentemente adotando uma sequência cronológica ao final, alcança o amor da terceira idade, a ‘segunda chance’ (terceiro episódio). Nessa última parte, inclusive, a obra faz alusão à admiração do mundo germânico por tudo que tangencia a cultura grega, visto que, foram justamente os bancos alemães que mais contribuíram para o desenvolvimento econômico desse país. Nesse passo, a figura do professor aposentado de uma universidade teutônica, apaixonado por uma dona de casa grega, descreve, com precisão, o poder de atração entre esses dois povos.

Além de um roteiro inteligente e enxuto, a trilha sonora se mostra irretocável.  Digna de um Ennio Morricone, os violinos da Orquestra de Praga sublinham os momentos dramáticos.

Provavelmente, a metáfora mais precisa sobre a situação econômica vivida por esse país é a imagem de um avião abandonado dentro de um aeroporto desativado, ou seja, tecnologia de ponta sucateada e reduzida a abrigo de dois jovens, vítimas de uma economia em declínio e da ascensão da direita. Entre inúmeros filmes sobre movimentos emigratórios, este, quiçá, seja um dos que consegue não só ser dramático, como também mais lírico e mais próximo à realidade, resultando, assim, em uma aula não só de mitologia, como de economia e de sentimentos.
pic nic webPIC NIC - FÉRIAS DE AMOR (A PEDIDOS) SESSÃO NOSTALGIA
ELENCO: William Holden , Kim Novak, 1955 (EUA), 106 min, Clássico (16 anos).

É feriado e chega à cidade o recém-saído de um trem de carga e“bon-vivant”, Hal Carter para tentar recomeçar sua vida. Com seu belo físico e muito charme, Hal vai para o Kansas à procura de trabalho na empresa da família de Alan, seu antigo colega de faculdade. Apesar de suas esperanças e expectativas, os planos ambiciosos de Hal logo dão errado: seu magnetismo sexual atrai todas as mulheres da cidade, incluindo a beldade de 19 anos Madge.
A paixão está presente nesse romance que lançou “Kim Novak” em sua longa estrada de sucessos.
Lary vai com a esposa à casa da família para a comemoração de um ano da morte do pai, onde encontram outros familiares das mais diversas gerações. Enquanto todos aguardam a chegada de um padre da Igreja Ortodoxa para realizar uma oração e benzer a casa, conversas paralelas revelam desde banalidades da vida cotidiana até conflitos entre os integrantes.

(É um filme de drama romeno de 2016 dirigido e escrito por Cristi Puiu. Foi selecionado como representante de seu país ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2017.) Vale a pena conferir!
hasta la vista web copyHASTA LA VISTA - VENHA COMO VOCÊ É (com Palestrante)
ELENCO: Robrecht Vanden Thoren, Johan Heldenbergh, Gilles De Schryver, 2012 (Bélgica), Comédia Dramática (Livre).

Esta é uma viagem de superação para três jovens deficientes físicos: um cego, outro paraplégico e o terceiro tetraplégico. Dizendo aos pais que pretendem conhecer as vinícolas da Espanha, os três partem em busca de realizar o que todo jovem comum gosta de fazer: dançar, beber e paquerar. Além disso, eles carregam um objetivo preciso em mente: perder a virgindade.

(O filme é simplesmente extraordinário, fantástico! Divertidíssimo e com situações delicadas vividas pelos deficientes que, como qualquer um, têm desejos e sentimentos. Baseado em fatos reais. Com cenas engraçadíssimas e outras de grande teor dramático, o filme é uma preciosidade.)


HASTA LA VISTA - Um tributo à amizade
Andrés von Dessauer
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Desde ‘MISS SUNSHINE’, rodado em 2006, o estilo ‘road-movie’ se mostrava fora do caminho da cinematografia. Mas, a combinação entre cinema e asfalto foi recentemente revitalizada através de dois automotores saídos quase que simultaneamente do acostamento europeu e americano. Nesse sentido, no continente americano, após 15 tentativas frustradas de adaptação, a consagrada obra ‘On the Road’, de Kerouac, rechaçada por Coppola, fora finalmente filmada por Walter Salles. Já na Europa, o diretor flamenco, Geoffrey Enthoven juntamente com o roteirista Pierre Le Clercq, colocam no trajeto Bélgica/Espanha um velho furgão, precariamente adaptado, rumo à satisfação da libido de seus passageiros. Baseado em fatos reais esse trabalho tem como ponto de partida a experiência de vida de Asta Philpot, um jovem tetraplégico possuidor de uma doença degenerativa congênita (astrogeripose) que, no intuito de viabilizar o acesso de deficientes ao sexo, passou a estimular a instalação de bordeis especialmente direcionados a esse público, criando, para tanto, uma Fundação que leva seu nome.

Traçando um paralelo entre esses dois ‘road-movies’ é interessante notar que ambos carregam consigo personagens dotados de sérias limitações, já que os três representantes da ‘geração beat’ de Kerouac/Salles sofrem de deficiência motivacional aguda e, os passageiros do furgão de Enthoven possuem restrições físicas extremas. Essa semelhança, todavia, cessa por aí haja vista que, a trama americana segue uma rota sem destino, repleta de devaneios e situações mal resolvidas, ao passo que o furgão europeu brinca com a realidade sem jamais se afastar de sua trilha rumo ao apropriadamente denominado bordel ‘El Ciel’.

Com efeito, de tão convincente, o elenco central de HASTA LA VISTA, formado por Gilles de Schrijver, Roprecht van den Thoren e Tom Audenaert, não raramente, leva o público a esquecer de que esses protagonistas não possuem as limitações de seus personagens. E esse efeito explica os diversos prêmios obtidos por essa comédia satírica-romântica nos festivais de Montreal, Valladolid e Quebec.

A força desse longa consiste na criação de uma identificação imediata com o espectador que, já na primeira cena, é transportado para dentro da película ao compartilhar do mesmo ângulo de visão de um dos personagens que assiste contido o balançar de dois provocativos pares de seios. Essa tomada inicial, per si, deixa claro que o desejo sexual suplanta qualquer ideal de perfeição, quebrando, assim, o tabu da assexualidade quase que inerente aos portadores de necessidades especiais.
Outro destaque é a condutora do furgão, a atriz Isabelle de Hertoch, no papel de Claude. Definida pelo protagonista cego (!), como uma deficiente afetiva, essa figura é responsável pelos momentos de expressiva beleza dessa jornada, preenchendo o clima do furgão com uma das mais românticas ‘chanções’ francesas (‘Et si tu n’existe pas’ de Joe Dassin).

Por fim, vale destacar a inversão do lema dos três mosqueteiros de Alexandre Dumas (‘Todos por Um e Um por Todos’) que nessa película, muitas vezes, passa a figurar como: ‘Um contra Todos e Todos contra Todos’. Cabendo esclarecer que ‘Todos’, nesse novo refrão, mantém relação com a humanidade como um todo. De fato, a forma descontinua com a qual esse grupo se relaciona com o mundo impede que a monotonia intrínseca ao asfalto envolva o filme. E, no plano psicológico, como os próprios personagens não são nada complacentes ou piedosos no que tange suas insuficiências, as situações risíveis parecem ilimitadas.

Parte da crítica sustenta a ideia de que o trabalho em questão deveria ter chegado ao fim quando da saída definitiva de um dos três integrantes da estrada da vida. Porém, alheio a qualquer pieguice e fiel, da primeira à última cena, ao seu formato politicamente incorreto, o longa é encerrado de forma cartesiana, com uma expressão que direcionada, justamente, ao personagem cego, sintetiza toda ironia da obra: ‘Hasta La Vista’.
siera nevada webSIERANEVADA
ELENCO: Mimi Branescu, Judith State, Bogdan Dumitrache, 2016 (Romênia), 173 min, Drama (14 anos).

Lary vai com a esposa à casa da família para a comemoração de um ano da morte do pai, onde encontram outros familiares das mais diversas gerações. Enquanto todos aguardam a chegada de um padre da Igreja Ortodoxa para realizar uma oração e benzer a casa, conversas paralelas revelam desde banalidades da vida cotidiana até conflitos entre os integrantes.

(É um filme de drama romeno de 2016 dirigido e escrito por Cristi Puiu. Foi selecionado como representante de seu país ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2017.) Vale a pena conferir!