a qualquer custoA QUALQUER CUSTO - Palestrante
ELENCO: Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, 2017 (EUA), 102 min, Suspense/ Drama, (14 anos).
Interior do Texas, Estados Unidos. Toby e Tanner são irmãos que, pressionados pela proximidade da hipoteca da fazenda da família, resolvem assaltar bancos para obter a quantia necessária ao pagamento. Com um detalhe: eles apenas roubam agências do próprio banco que está cobrando a hipoteca. Só que, no caminho, eles precisam lidar com um delegado veterano, que está prestes a se aposentar.

Sinópse por Andrés von Dessauer - O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Desde o início da cinematografia, os filmes de faroeste, os ‘Western’, estavam em evidência e cativaram o público, não só americano. O primeiro desse gênero, com 9 minutos de duração, mas já incluindo um roteiro (!), O GRANDE ROUBO DO TREM, de Edwin S. Porter, foi apresentado em Washington em 1903. Desde então, a ascensão dos ‘Western’, um produto, genuinamente americano, foi vertiginosa, e, durante décadas, ele foi o mais requerido gênero. Nos anos 60, a Itália, se tornou o mais forte concorrente nesse segmento, com seus ‘western spaghettis’, mas não conseguiu tirar os USA da ‘pole position’.
Com a emigração das ‘action movies’, sempre opondo o bem ao mal, da área rural para as cidades, as películas de gângsters começaram a substituir, em parte, os faroestes, no entanto, estes nunca desapareceram das telas, mas sofreram transformações, adaptando-se a uma sociedade, cada vez mais, diferenciada.
Devido a isso, não é raro que, na seleção das películas que disputam o Oscar, ressuscite um filme de “cowboys”, pois estes continuam sendo apreciados. Sendo assim, em 2017, o filme HELL OR HIGH WATER, de David Mackenzie, recebeu quatro indicações, incluindo o troféu de ‘Melhor Filme’, mas, pela forte componente política, que influiu na decisão dos 6.687 jurados do ano, a obra não conseguiu ser um dos agraciados.
O que mais chama a atenção, nesse longa dramático, sem dispensar momentos hilários, é, além de um roteiro cheio de suspense (Taylor Sheridan) e de uma trilha musical costurada de forma perfeita (Nick Cave e Warren Ellis), a conservação de todas as características típicas dos antigos filmes de faroestes, trazidas a valor presente, como: o clima do “mid-Texas”; vilarejos quentes e empoeirados, perdidos no tempo; o tom áspero e seco dos habitantes; paisagens semidesérticas; perseguição aos malfeitores. Já a figura mais tradicional dos filmes do passado, o xerife, incorporado por Jeff Bridges, tem, na obra, uma performance tão excelente, que deveria ter recebido o Oscar de ‘Melhor Ator Coadjuvante’, mas dado para o ator Mahershala Ali, da película MOONLIGHT. Talvez cansado por nunca ter sido retirado, durante décadas, das telas, a figura do Texas Ranger, na espera por sua aposentadoria, exibe um ar de extremo cansaço. Suas frases não são desprovidas de cinismo e de discriminação quando se dirige ao sub-xerife (Gil Birmingham). Este, por sua vez, ao literalmente incorporar tanto os índios, que desapareceram das planícies e dos roteiros, quanto os latinos que emigraram para os USA, é evidência viva de que grupos minoritários de outrora, vivendo na margem da sociedade, podem ser, hoje, perfeitamente, guardiães da lei. A essa poderosa dupla, contrapõe-se outra de peso equivalente: dois irmãos assaltantes de bancos (Chris Pine e Bem Foster), os anti-heróis, cuja atuação é, igualmente, impecável, e são responsáveis pela excelente sequência da abertura do filme que cumpre a promessa de entregar qualidade. As duas duplas têm, na afetividade entre si, um denominador comum, que foi bem explorado por Mackenzie.
No decorrer dos anos, os roubos às diligências e aos trens foram substituídos por assaltos a bancos, considerados, na presente obra, os vilões e para os quais convergem os personagens da película. Os bandidos, no HELL OR HIGH WATER, não visam mais a um lucro pessoal, mas tentam resgatar os valores que, justamente, os bancos, através de suas carteiras hipotecárias, extraíram, dos seus clientes de forma exploradora. Daí que o título da obra, uma expressão idiomática da língua inglesa, traduzido para o português como A QUALQUER CUSTO, foi escolhido de forma correta, trazendo à baila a severa recessão econômica dos anos 2008/2009. Inovador é a preocupação de, pelo menos, um dos assaltantes não, somente, com a recuperação da liquidez extorquida pela ganância corporativa, e sim com a próxima geração que, para sair do ciclo de pobreza secular, deverá investir na extração de petróleo. Roubar bancos tem, agora, uma justificativa moral – algo que, certamente, não existia nos filmes do século passado.
Os conceitos ‘bem’ e ‘mal’ são colocados em xeque pela justificativa dos assaltos e se tornaram ambíguos nessa obra. O resultado dessa metamorfose se evidencia no fato de que o sempre presente duelo final dos ‘Western’ foi, de forma genial, transferido para fora do roteiro e para um futuro incerto, em que, parafraseando Friedrich Nietzsche, será decidido quem implantará uma nova ordem moral. O filme, portanto, não só contribui para resgatar os ‘Western’, mas se mostra inovador, relativando valores que, até então, pareciam imutáveis. HELL OR HIGH WATER não foi contemplado com um Oscar, mas, em contrapartida, não será, pelo presente artigo, esquecido como prova de uma sociedade em transformação.