O Segredo Dos Seus OlhosO SEGREDO DOS SEUS OLHOS
PALESTRANTE – ANDRÉS VON DESSAUER 
DIA: 16/12/18 – DOMINGO
ELENCO: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, 2010 (ESP/ARG), 129 min, Drama, 16 (anos).

Benjamín Espósito se aposenta do cargo de oficial de justiça e decide escrever um livro. Sua inspiração é um caso real de estupro e assassinato de uma jovem nos anos 70. Em sua jornada, ele conhece o marido da vítima e promete ajudá-lo a encontrar o culpado.


por Andrés von Dessauer
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O filme de Juan José Campanella, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, que levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, é baseado em uma estória de tirar o fôlego e realizado por uma edição fascinante. No elenco, figura o selo de qualidade argentino, Ricardo Darín, hoje, um peso tão pesado, que não se assiste mais a um filme com Darín, mas se assiste a ele, em primeiro lugar, por causa do ator. Destacam-se também Soledad Villamil (no papel de Irene Menéndez Hastings), a chefe hierárquica de Darin e, o colega subordinado dele, Guilhermo Francella (incorporando Pablo Sandoval). O último ator é, na vida real, um comediante conhecido e rouba cenas com frases hilárias, que garantem a fluidez do roteiro. A estória, que envolve três tempos diferentes, com flash backs dentro de flash backs, gira em volta de um homicídio chocante, investigado pelo cartório do Juizado Penal de Buenos Aires.

Referente à parte técnica, vale mencionar que a trilha sonora sublinha as cenas de forma correta, especialmente, quando adágios se tornam necessários. Quanto à câmera, destaca-se uma longa tomada, que tem início em uma partida de futebol, até a descoberta do suspeito, com a perseguição deste por toda a instalação esportiva. Para tanto, foi usado, pela primeira vez, na cinematografia, o sistema MASSIVE (Multiple Agent Simulation System in Virtual Enviroment = Sistema de Simulação de Múltiplos Agentes em Ambiente Virtual), um software de altíssima qualidade o qual combina digitalização com a performance dos atores. Essa cena, de mais de 6 minutos de duração, levou 2 anos de preparação, 3 dias de filmagens e meses de produção.

Mesmo assim, a parte técnica bem elaborada só complementa o fascínio que a estória exerce no espectador, culminando em um fim surpreendente, que jamais será esquecido. Aliás, a edição foi tão bem construída, que, por vezes, o público acha que o filme chegou à sua conclusão, entretanto, quem diria, a câmera continua rodando e satisfaz o nosso desejo por uma continuação.

Simbologias e alegorias correm à solta, tanto nas partes, aparentemente, insignificantes, como nas tomadas mais importantes. Aponta-se aqui, o uso de uma antiga máquina de escrever Olivetti cuja letra "A" está emperrada, equivalendo ao amor contido do oficial de justiça, Darín, por sua superior, Irene. Já o "Trem", um símbolo cinematográfico que acompanha o cinema desde o primeiro filme, representa os encontros, os desencontros, as chegadas e as despedidas, uma força que, nas obras de ANNA KARENINA, atinge seu ápice.  A impossibilidade dos dois protagonistas viverem uma vida plena de amor não é só representada pela separação das mãos por um vidro, mas reforçada pelo trem em movimento. Ademais, Campanella consegue introduzir, subliminarmente, várias vezes, informações no longa, para insinuar em que direção está sendo conduzido o roteiro. Assim, o fato de o criminoso nunca ter, durante anos, viajado de trem, porém de ônibus, para assistir aos jogos de futebol em Buenos Aires, é indício de que o desfecho será uma surpresa, não algo convencional.

A obra traz, no seu ventre, um argumento que pode ser a base para uma discussão calorosa, especialmente, para operadores do Direito: a divergência entre ‘A’ Justiça e ‘uma’ Justiça. Questionável é se uma condenação por uma instância ou até pelo Tribunal Superior de um país pode, ou deve, ser executada por um indivíduo, caso o poder público vigente ("Época de Chumbo na Argentina") não execute a pena, devido ao fato de o condenado ter sido liberado para prestar serviços fora da lei a mando do governo. Devido a opiniões divergentes sobre a legitimidade dessa ação individual, Campanella, sabiamente, foge pela tangente e se concentra na investigação e nos "olhos" que, durante o interrogatório do suspeito, têm um papel decisivo ao cravar, nas telas, uma das cenas mais brilhantes de indução, para extrair, indiretamente, a confissão de um assassino.

O argumento-Cupido, "a paixão", está evidente desde a primeira cena, depois que Darín passou por dois "anjos que caíram do céu", substituídos, imediatamente, pelo "arcanjo" Irene. Uma paixão clama, invariavelmente, por algo para se materializar, seja uma pessoa física, seja um time de futebol, seja a bebida, seja uma recordação, e todos esses alvos são abordados pelo longa. A paixão extrema, ou seja, a vertente patológica do amor, talvez seja a obsessão, no entanto a obsessão, para o marido da vítima, representa o preenchimento de uma vida "cheia do nada" e facilita a transformação dele em carcereiro do condenado. Não resta dúvida para quem já foi atingido pela flecha do Cupido que o maior temor da paixão é ser rejeitado pela pessoa amada.  Com grande sensibilidade, o diretor conseguiu formular isso através da palavra TEMO, quando Darín, depois de anos, decide declarar-se e insere o ‘A’, emperrado na Olivetti, justamente, na parte central da palavra TEMO, alterando, dessa forma, a expressão para 2 palavras, que o forçam a sair da sua inércia.

Uma obra cinematográfica é excelente, quando consegue iniciar e finalizar, sempre tendo, em mente, o título, a fim de mantê-lo como fio de ouro. Na cena derradeira, Campanella, além de voltar para o argumento sobre os "olhos", junta a linguagem deles à expressão verbal: o olhar conjuga o verbo AMAR, enquanto o intelecto afirma, através de palavras, que podem existir dificuldades. Contudo a linguagem das "janelas da alma" é mais forte e responsável por um desfecho que deixa todos os espectadores extasiados.

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Para aqueles que se interessam por cinema, uma dica: analisar filmes é, essencialmente, compará-los. Dessa forma, vale a pena assistir ao filme americano de Billy Ray, OLHOS DA JUSTIÇA (2015), um remake com alguns pesos pesados (Nicole Kidman e Julia Roberts), mas, em todos os aspectos, é muito inferior à versão argentina e apresenta um fim quase medíocre.